quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fui um anjo




Atravessar o real, Permear na imensidão do vacúo, observar a existência através da fresta do portal do paraíso... somente um anjo pode transcender o methaphisico para o phisico ou o contrário.
Por determinados momentos esqueço quem fui. O que me restou do que era.
Mas, apesar de mortal, ainda escuto música quando a alvorada eleva-se com os primeiros raios de sol e, também, quando o crepúsculo nos acena em adeus, com o sol mergulhando no horizonte.
Ainda possuo meus sentidos de anjo, embora encarcerado, agora, na forma mortal. Posso enxergar o mundo com olhos imortais, mas tenho o dom do amor mortal. Um amálgama de seres que me tornam, por natureza, a priori, solitário. Me sinto longe da superfície, longe de você. Agarro-me, desesperadamente, na possibilidade em que você jamais tenha me esquecido, mesmo que não mais esteja aqui. Nenhum abismo pode ser tao profundo que a luz do amor não possa perpassá-lo.
Me vem a luz da mente a morte. Penso em quando retornar. Penso se ELE ainda me aceitará ou me despachará para aqueles que um dia foram meus irmãos. E, assombra-me, se quando a terra abrir, o fato de ser apenas mais um corpo oco sem essência. Abre a terra sua voraz boca para engolir algo sem sentido. Será um cadáver sem sentido? Toda historicidade presa aquela singular existência derramada da vida - como um copo cheio que tomba-se ao chão - sem sentido?
Sem asas estou, mas, ainda assim, fui um anjo.

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