sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Charles Baudelaire

As Litânias de Satã


Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,

Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,

E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,

Charlatão familiar das humanas insânias,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu

Ensinas pelo amor às delícias do Céu,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que da morte, tua velha e forte amante,

Engendraste a Esperança, - a louca fascinante!


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar

Que faz ao pé da forca o povo desvairar,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que sabes onde é que em terras invejosas

O Deus ciumento esconde as pedras preciosas.


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu cuja larga mão oculta os precipícios,

Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que, magicamente, abrandas como mel

Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre

De poder misturar ao enxofre o salitre,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,

Sobre a fronte do Creso implacável e vil,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos

Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Do exilado bordão, lanterna do inventor,

Confessor do enforcado e do conspirador,


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre

O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre


Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!


Charles Baudelaire (Tradução de Guilherme de Almeida e Ivan Junqueira)




Baudelaire, fantasticamente, Baudelaire!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

é a flauta da morte me chamando...

escuto uma cançao, uma fina canção.
o vento nas folhas, um pio de coruja,
um estrondo de tambores, mas... ninguém.
estou só! -- concluo.
a canção permeia meu ser, o meu secreto ser.
toma minha mente de assalto e demonstra o divino;
escuto um doce, no entanto, macabro som.
é a flauta da morte me chamando...
... estou morto.



morro no momento em que me nego a ser o derradeiro ser-aí, me escolher como escolha em atos; fui aquilo que nao escolhi ser e deixei, a maldita "mao do destino", comandar meus passos, devo pular de minha posiçao imediata a um nivel mais elevado.
devo ser e me assumir como o ser transcendente, o Kwizatz Haderach de frank herbert,sou o destinado ao além do além, posso ver o universo com olhos de anjo; sou o potente em um mundo de não-potências; de degradação do outro.
da exorbitância de um deus chamado dinheiro, vejo a ruína dos homens.