quinta-feira, 22 de abril de 2010

Fui um anjo




Atravessar o real, Permear na imensidão do vacúo, observar a existência através da fresta do portal do paraíso... somente um anjo pode transcender o methaphisico para o phisico ou o contrário.
Por determinados momentos esqueço quem fui. O que me restou do que era.
Mas, apesar de mortal, ainda escuto música quando a alvorada eleva-se com os primeiros raios de sol e, também, quando o crepúsculo nos acena em adeus, com o sol mergulhando no horizonte.
Ainda possuo meus sentidos de anjo, embora encarcerado, agora, na forma mortal. Posso enxergar o mundo com olhos imortais, mas tenho o dom do amor mortal. Um amálgama de seres que me tornam, por natureza, a priori, solitário. Me sinto longe da superfície, longe de você. Agarro-me, desesperadamente, na possibilidade em que você jamais tenha me esquecido, mesmo que não mais esteja aqui. Nenhum abismo pode ser tao profundo que a luz do amor não possa perpassá-lo.
Me vem a luz da mente a morte. Penso em quando retornar. Penso se ELE ainda me aceitará ou me despachará para aqueles que um dia foram meus irmãos. E, assombra-me, se quando a terra abrir, o fato de ser apenas mais um corpo oco sem essência. Abre a terra sua voraz boca para engolir algo sem sentido. Será um cadáver sem sentido? Toda historicidade presa aquela singular existência derramada da vida - como um copo cheio que tomba-se ao chão - sem sentido?
Sem asas estou, mas, ainda assim, fui um anjo.

domingo, 18 de abril de 2010

Clarice, sempre... Lispector.




Clarice, um pouco dela, por ela:

"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

"Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez."

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

"...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo."

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."

"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós."

"O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão."

- Clarice Lispector -

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Almas" raras

Ao assistir o programa provocações da tv cultura, o entrevistador e diretor Abujamra, nos deixa uma idéia sobre o espírito, a qual pertence ao meu modus operandi diário.
Sou portador do espírito refinado e reflexivo, incansável contestador de uma realidade que consomem aqueles que seguem as massas, nao posso me permitir ser apenas mais uma "vaca de presépio". Nunca flertei ou corroborei com tal idéia.
Guerreiro em minha sôfrega existência, pertenço a uma categoria de "almas" raras. Uma classe de seres que julgam com seu senso crítico o maldito, ou bendito, existir; que, como afirma Jürgen Habermas, exercitam a teoria crítica; ao respirar, ao sentir... ao viver.
De um conhecido recordo-me: "o espírito preparado nunca se surpreende. Ele esta lá. Pronto a mudança. Sem se espantar, seja qual for a forma que o novo assuma. Sem temor, sem neofobia."
Devemos buscar na humanidade a forma de transcender a ignorância, os conceitos que são "pré-formados". Exercer a crítica construtiva só elevam aqueles que nos rodeiam ou as sofrem .
O acordar de um novo mundo se faz necessário para construirmos, nos construindo, uma nova alvorada repleta de cultura, igualdade e menos miséria, seja financeira ou intelectual.
O fato de sermos seres para morte nos deixa um interstício, e aí, justamente nesta lacuna de nascer e morrer, reside o grande triunfo da existência que é o viver. Nao podemos abarcar o fluxo de nos deixar levar, que as coisas aconteçam. A cada manhã devemos ser o SER-AÍ, o SER-NO-MUNDO. Heiddegeriano. A transmutação do pensar em ato.
Não devemos simplesmente acordar como ontem sendo o mesmo medíocre de ontem. O ser humano está para o além do humano. Devemos rever conceitos e transcendê-los um dia após o outro. Mesmo que ainda sejamos extremamente cativos, seja de amor, carinho, maneiras e formas; devemos transcendê-los. Somos a ponte para o super-homem, como dizia Nietzsche. A partir da reflexão do antes de ontem, fomos diferentes no ontem, para superar no hoje, e amanha olhar para hoje como o passo que nos leva a superar sempre, dia após dia.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Olhei em sua direção




Olhei em sua direção, pretendendo sorver de teu olhar o mais meigo carinho.
Pretendia roubar-lhe o mais doce beijo, se, com uma piscadela, fosse minha cúmplice. Me enganei de novo. De doce, só me restou o sonho. Pois, a colheita foi de um imenso amargar. Os seus beijos não mais a mim pertencem. Me resta o virar da face em direção ao travesseiro. Calha-me a música agora ouvida: So Lonely (The Police na voz da banda Nouvelle Vague).